ESG e algumas reflexões
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10.09.2024

Baseado no artigo de Robert Eccles – Moving Beyond ESG. HBR

O termo ESG (sigla em inglês que significa environmental, social e governance) surgiu em em meados de 2004 quando o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan, fez uma provocação para as grandes instituições financeiras do mundo, por meio da publicação Who Cares Wins (Quem se importa, ganha). Este documento existe uma provocação para respostas dos bancos em relação a integração de fatores ESG no mercado de capitais. De lá pra cá, o termo tem sido inserido em agendas estratégicas de empresas e diferentes setores, com base em tomada de decisão financeira e investimentos.

Mesmo sendo popular, o termo ainda traz dúvidas quanto a sua robustez em abordar grandes questões sociais e ambientais no contexto corporativo e, por outro lado, tem gerado questionamentos em relação a sua base. Não vamos falar de política nem questões relacionadas a ela neste artigo, mas de qualquer forma, permanece a necessidade de se ter mecanismos mais transparentes de lidar com o desempenho financeiro e ESG. De reconhecer que estamos diante de desafios complexos que precisam ser resolvidos. É sobre isso!

O ESG traz consigo desafios globais legítimos que levarão um certo tempo até serem solucionados, tanto técnicos quanto políticos. E a grande questão em discussão é o real papel da empresa na sociedade. O que é ser uma empresa responsável? Ainda pode não estar claro, e bem definido, como as empresas criam valor e como as iniciativas ESG contribuem.

Levando por um lado pragmático, se a empresa definir claramente o propósito corporativo, se for transparente em seus relatórios e envolver as partes interessadas, essas estratégias ajudarão a gerir melhor as demandas externas e suas pressões, concentrando-se em aspectos materiais que afetam o valor para os acionistas e, ao mesmo tempo, abordando impactos sociais mais amplos.

No debate ESG está a questão fundamental do papel da empresa na sociedade: o que significa ser uma empresa responsável?

Talvez a base seja o reconhecimento da diferença entre ESG tradicional e de impacto (a diferença entre materialidade simples e a dupla. Estas estratégias permitirão que os líderes se afastem das suas posturas reativas e moldem proativamente as discussões em todo o contexto.  

Quando iniciamos a jornada de uma empresa no ESG é primordial definir qual o seu propósito. Isso exige uma visão, missão e valores que identifiquem o que realmente a empresa faz, por em destaque questões materiais ESG e que geram valor organizacional. Aqui podemos esbarrar em argumentos de que interesses dos acionistas podem ser divergentes em relação às partes interessadas.

O objetivo de uma empresa é produzir soluções lucrativas para os problemas das pessoas e do planeta e minimizar o lucro resultante da criação de problemas

(Colin Mayer - Prosperity: Better Business Makes the Greater Good)

Com a identificação das necessidades não satisfeitas dos clientes, as empresas devem articular os fatores ESG que representam riscos materiais para a criação de valor para os acionistas. A gestão de fatores de risco específicos da indústria pode evitar que o mundo se torne num lugar pior, mas não o torna necessariamente num lugar melhor. Empresas podem ter um desempenho ruim em ESG mas ainda sim gerar impacto positivo. Isso porque quando falamos de ESG tratamos de vários assuntos de forma sistêmica e nem sempre a empresa possui ações que a levam a pontuações elevadas em todos os aspectos.

As classificações existentes tentam evidenciar o risco material de cada tema e como isso pode afetar o desempenho financeiro futuro. Existem críticas em relação a isso, mas a lógica é olhar não só o presente, mas ir além.

Outro detalhe é que mesmo que a empresa tenha um alto desempenho ESG e impactos positivos evidentes, a mesma gera alguma externalidade negativa. Importante mapear como a empresa lida com a mesma de forma proativa, com metas, planos e ações concretos. E este é o caminho para ser uma empresa responsável: mapear suas externalidades negativas e ter planos para reduzi-las. Ou seja, lidar com impactos negativos, mesmo que não sejam materiais, do ponto de vista ESG.

Dessa forma, ser uma empresa responsável exige ter um propósito claro – e isso requer uma compreensão clara do que a empresa pode e não pode fazer para enfrentar os desafios sociais e ambientais, proporcionando ao mesmo tempo retornos de longo prazo aos seus interessados.

Transparência. Os padrões de relatórios estabelecem as bases para a transparência ESG. Ainda estamos caminhando para um conjunto universal de normas. Os padrões de relatórios financeiros exigem que as empresas relatem tanto o bom quanto o mau desempenho financeiro. Os padrões de relatórios de sustentabilidade farão o mesmo. Permitirão que as empresas sejam precisas na elaboração de relatórios sobre o desempenho ESG e o seu impacto. 

E por último, compromissos. Nos bastidores da Agenda ESG temos compromissos assumidos, que podem ser declarados ou “subentendidos”. Isto requer reflexão, comprometimento, ação, gestão e transparência. E uma agenda do dia-a-dia com foco naquilo que é mais importante e questões transversais como gestão eficiente, redução no uso de recursos, ampliação das externalidades positivas. ESG é bom para a empresa, é bom para a sociedade, é bom para todos. Saibamos aproveitar as oportunidades e fazer nossas empresas mais responsáveis e exemplos de como podemos construir um mundo melhor para todos.

Claudia Borges – Núcleo ESG-FIEMS.

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